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Em busca do tempo perdido

Não é a literatura com a origem das nossas pesquisas, mas com uma sabedoria que enriquece nossas buscas....

“Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações”. (PROUST, 1993. p.29)


PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido. No caminho de Swan. Vol.I. Trad. Fernando Py. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993.

CASA DE jE PALADAR, convida

CULTURA POSTAS À MESA
"postesia" e " correspondências poéticas



OFICINA RELÂMPAGO DE POESIA, INSTALAÇÃO POÉTICA
EM POSTES DA REGIÃO E BATE-PAPO
com Binho, Suzi, Fernando da Fundão , Alisson da Paz, comunidade e outros poetas
DOMINGO, 02/maio/10
muqueca bahiana e bate-papo , a partir de meio-dia

Local: Sacolão das Artes 


Rua Cândido josé xavier, 577 - Parque Santo Antônio
apoio: bancredi - bloco do beco - Subprefeitura de M'boi Mirim
Fone: (11) 5819.2564
www.artepaladar.blogspot.com







Baoba real

Relato de viagem: Entre Zimbabwe e Moçambique

Escrevo agora do distrito de Luangwa que fica a 400 Km de Lusaka. O caminho para chegar até aqui é lindíssimo. Luangwa fica num vale, na confluência dos rios Luangwa e Zambezi. Do hotel onde estou se eu olhar para a esquerda, vejo Moçambique e se olhar para a direita vejo o Zimbabwe.

Outra coisa linda aqui, são os pés de baobá. Um mais escandaloso que o outro, disputando em imponência. Fiz foto de deles (as) para verem como é, realmente.

O caminho é cheio de elevações e declives suaves e a natureza super generosa. Morros lindíssimos, verdes de mil tonalidades, ocres, terras, enfim um espetáculo. Lembra um pouco aquelas paisagens de Minas Gerais, só que tem um quê mais agressivo. A densidade demográfica é baixa, mas os grupamentos humanos são maiores que os de Mumbwa. Quando se chega ao distrito de Luangwa, temos 87 km de estrada de terra, que vai até as fronteira. Nesse ponto tem um povoado que é um barato; parada obrigatória. As pessoas montaram um comércio literalmente na beira da estrada, contíguo ao portão de entrada do parque: tem criança brincando no meio da estada, gente vendendo frutas, um boteco com a eterna placa da coca-cola, gente vendendo carvão, esteiras. É a maior muvuca, como dizem na Bahia. Aí todo mundo tem de parar mesmo. Ali comi uma frutinha (uma é modo de dizer, né moçada!) que é parente próxima do murici; maior, do tamanho de uma uva, com casca de cor acastanhada. O gosto é idêntico, até o cheiro é parecidíssimo. O distrito é um parque nacional para a proteção dos animais; com a proximidade do rio Luangwa existem plantações de milho que vão pela beirada do rio. Ouvi dizer que as cheias e vazantes são imprevisíveis e, às vezes, vai tudo literalmente por água abaixo. Então, temos aqui o problema da insegurança alimentar. As pesca é forte e há um comércio intenso nas fronteiras. Os povos se cruzam aqui o tempo todo.

O clima é do tipo friozinho à noite e ao meio dia um calor de rachar, um calor que cansa agente. Fiquei olhando para o rio Luangwa, já querendo dar um "jump" especialmente ao meio dia. Levantei a hipótese e me disseram que é só tomar cuidado com os crocodilos. Pensei no meu chuveirinho no quarto e achei que estava muito bom. Very good! Já pensou, depois de 6 anos de Xingu e 5 de Rio Negro, levar uma dentada de crocodilo na Zâmbia?


Relato e foto de : Marina Machado, junho/2007

Cheiro de goiaba


Foto: Sakurai Midori


O cheiro de café, do feijão, de torresmo e banana frita me levam numa viagem no tempo que até hoje eu não consegui descrever. São momentos que me fazem recordar a união de minha família. Os laços familiares são correntes da sobrevivência. Ninguém, nenhum homem é uma ilha.

Nunca poderia imaginar que falar de comida e afetividade resultasse num processo de imersão tão grande em minha vida. Entre tantos relatos bonitos, ligados à infância e comida, talvez o meu não seja tão feliz assim. Mas é tão importante quanto. Sou o que sou por ser o que éramos. Nós éramos uma dezena.

Dona Coracy era uma senhora muito simpática e doce. Na descrição rural, ela seria uma verdadeira galinha apanhadeira, pois sempre estava entre seus pintinhos. Dez filhos e uma casa para terminar.

Meu pai finalizou o básico no auge de seus quarenta e faltando uma perna, perdida por acidente de trabalho – história essa que a família, automaticamente, apagou. Eu tinha nove meses. Cresci sem pai. Que coisa!

Com a morte de meu pai, passamos a ser nove caixas de saída e nenhuma caixa de entrada. Com a caridade de poucos vizinhos, e alguns bens deixados pelo meu pai, fomos recebendo doações e vendendo: coelhos, charretes, cavalos... Até ficar com quase nada de criação. Restava apenas vender verduras – chuchu. Até ficar com quase nada. A casa já estava “quase” terminada. Muitos quartos, uma grande cozinha e um quintal a perder de vista.

Com a morte de mais dois irmãos, ainda pequenos, Manoel Emílio e Marcelo, fiquei aos cuidados das minhas irmãs mais velhas e minha mãe começou a lavar roupa para fora. O dinheiro não dava. Passou a trabalhar como doméstica na capital. Quando chegava o domingo, logo pela manhã, eu entrava debaixo da mesa para minha mãe chegar logo. Superstição, mas dava certo. Bastava eu me agachar e o trinco da porta fazia um barulhinho. Mesmo com tanta coisa para fazer, como era bom ver aquela figura materna entrando pela porta adentro! Meu coração parecia explodir de tanta alegria. Ah, seu cheiro. Como é bom cheiro de mãe!

Agora, éramos sete. Com a família um pouco menor, poderia se pensar que as coisas iriam melhorar. Pôr os filhos de quatro e cinco anos para trabalhar era sinônimo de melhoria. Pois bem, estávamos melhorando. Todas domésticas e carregadores de caixas em feiras livres.

O quintal

Com o cerco da ditadura, mulheres, feministas e articuladas, minha irmã mais velha (que considero minha segunda mãe) precisou ir para Portugal. Política. A nossa salvação, por um bom tempo, no entanto, durou pouco. Minha mãe não sabia como trocar o dinheiro, aí, mais uma vez fomos enganados. Mais uma vez. O dinheiro era trocado por uma ninharia que mal dava para passarmos o mês.

O quintal foi a nossa verdadeira salvação. Nele eu tinha o meu mundo. Aos sete anos de idade, conheci verdadeiramente a fome. E confesso, não a achei bonita. Pretendo pular essa parte. São veias que não quero mais mexer.

Mas narro aqui o que realmente interessa: o milagre das goiabas. Com um vasto quintal, na época mais difícil da história de Campinas, tirávamos dali todo o nosso sustento. Mandioca, frutas variadas, verduras. Mas a goiabeira foi uma grande mãe. Tínhamos dois tipos no quintal: a branca e a vermelha. No entanto a vermelha, parecendo sentir a situação precária que passávamos, por um longo período, dava o ano inteiro. Como deu.

Essa goiabeira foi o nosso parquinho, brincávamos nela sempre que acabávamos de fazer nossos deveres, diga-se de passagem “domésticos” e escolares. Xingávamos até na hora de varrer aquele imenso quintal cheio de folhas, abelhas e formigas, por conta das goiabas caídas no chão. Era uma história de amor e ódio, um verdadeiro paradoxo.

O milagre

Em toda minha vida só vi minha mãe chorar uma vez. Na morte de minha irmã Marisa. Naquela época eu já estava com 23 anos. Sendo assim, na minha infância, nunca vi minha mãe chorar. Não na minha frente, pois hoje que sou mãe, sei que elas choram... E como!

Quando eu conheci a fome, eu fui apresentada aos milagres que uma mãe preta é capaz de fazer não tendo nada. Já vivi um mês inteiro à base de goiaba. Estudava de manhã e o meu café da manhã era o pão de minuto – feito com fubá, pois a farinha era cara, banha de porco e sal com uma pequena pitada de açúcar [1]. Minha mãe fazia uma geléia da polpa da goiaba com açúcar preto – mascavo, naquela época açúcar de pobre – e misturava no leite quente. Era um verdadeiro achocolatado, só que de goiaba. Um agoiabado! Perdão pelo neologismo, mas eu não resisti!

No almoço, quando não era salada de goiaba, era macarrão – feito em casa – com molho de goiaba. Carne? Carne! O que é isso? Nem nossos coelhos nós comíamos, de dó. E as galinhas, todas com nome, só iam para panela quando alguém ficava doente. Muito doente mesmo! Eu me lembro de uma de minhas irmãs dizerem: “Que menina de sorte, vai comer canja hoje”. Acho que é por isso que sempre a mesma ficava doente.

O jantar, sempre uma polenta com um molho – rosa – de goiaba ou sopa de fubá com couve. Santa couve. Como eu te comi! Tudo, hoje, referente ao fubá, o máximo que consigo comer é polenta com frango caipira. Se colocar um prato de sopa de fubá na minha frente, eu saio correndo, e se for com couve, vixe!!!

Tínhamos o hábito da ceia. Era religioso antes de dormir cearmos. Tínhamos no cardápio o bolo de fubá e café com leite. Nas marés baixas, era broa de fubá, goiabada cascão e chá de erva cidreira.

Enfim, aquela mulher, arcada pelo peso das trouxas de roupas, realizava na cozinha verdadeiros milagres. Tínhamos manga, banana, mexerica, limão, laranja e limão galego, mas era nas goiabas que mantínhamos a base alimentar da casa.

“Seiscentas calorias, rica em vitamina C e eliminadora dos radicais livres, ou seja, anti-envelhecimento...”

O único arrimo de família, meu irmão Mário, foi minha figura paterna até a adolescência. Envelhecido pelas responsabilidades e acanhado por viver no meio de tantas mulheres, minha mãe nunca escondeu, ou sequer disfarçou, a paixão que tem por ele. Podemos dizer que ele, apesar de seu ostracismo, é o filho perfeito. Mas com a idade e a escola do mundo descobri que ninguém é perfeito.

As égides de minha vida foram as demoradas conversas que tinha com o meu pai. Não me lembro quando isso começou, mas em momentos críticos de tristeza, fome e solidão, eu batia altos papos com o meu velho. Depois de uma longa conversa eu criava forças para uma nova jornada. Sempre perguntava como seria minha vida se meu pai estivesse vivo. Eu queria loucamente ter um pai.

Todos me olhavam de soslaio. Tinham um olhar de piedade. Mas no fundo, no fundo, eu deveria mesmo é ser um fardo para eles. Eu era a única que dependia deles para tudo. Todos moços, trabalhando e eu agachada pelos cantos da casa, secando de saudades de minha mãe.

Com o passar dos anos a família foi cindida. A cada falecimento, a cada partida eu me partia. Minha identidade se perdia. Mas uma vez me encontrava sozinha.

Tínhamos uma vida espartana. Matávamos, ou melhor, meus irmãos matavam um leão por dia. Hoje choro com os relatos de meus alunos. Re-visito minha história, toda vez, quando leio as suas.


Por Márcia Adão


[1] Não se preocupem, darei as receitas.

A porrada e o suco de maracujá


Um belo dia de sol eu e todos os meus amigos estávamos brincando como fazíamos todos os dias, afinal tínhamos um campinho para jogarmos futebol, bolinha de gude, rodar peão, andar de bicicleta, soltar pipa etc.

O campo parecia mais um parque que tentávamos aproveitar o máximo possível, afinal criança gosta de espaço para correr, chutar, gritar e fazer todas as coisas que queriam.

Em um belo dia, brincando no campinho, correndo pra lá e pra cá e faminto como sempre, vem um rapaz mais velho com uma lata de linha e uma pipa no alto. O nome dele é inesquecível. Era o GETÚLIO, rapaz mais velho que sempre soltava pipa com todos os garotos. Mas esse dia foi especial, pois Getúlio sabia do que eu gostava. Não era pipa, peão, linha, bolinha de gude, não; era algo com uma cor diferente e que dizem que nos acalma; era algo inigualável chamado de suco de maracujá.

É isso mesmo, suco de maracujá!

O Getúlio lembrando disso me fez uma proposta tentadora, ele me prometeu um copo grande com suco de maracujá e uma pipa também muito grande e colorida - tudo que qualquer menino queria. Só que a tarefa não era agradável. Porém, não me pareceu tão difícil. Eu tinha apenas que dar um murro no nariz de um amigo, afinal, um amigo não se incomodaria de ajudar um outro amigo, né! O nome dele era JORJINES.

Era algo muito simples: um murro no nariz dele e todo mundo ficaria feliz. Uns mais e outros menos, mas ficaríamos todos felizes. Após pensar durante um breve momento aceitei a proposta: era só uma porrada e eu nem batia tão forte.

Então comecei a tentar convencer o meu amigo a me deixar dar um soco, ou melhor, um pequeno soquinho. Algo leve, doeria só um pouquinho e até estava disposto a dividir o prêmio com ele, a pipa e o suco. Achei justo, mas, infelizmente, a justiça é vista de formas diferentes e sempre beneficiava alguém, e esse alguém no momento era eu.

Já que não consegui pelo jeito fácil, tive que partir para o jeito mais difícil, ou seja, tentar dar o soco sem a permissão do dono do nariz, afinal era uma pipa e um copo enorme com suco de maracujá.

Comecei a tentar acertar um soco e Jorjines nessa altura do campeonato falava:

- Lula, não faz isso, ele quer que nós briguemos.
- Vem cá para eu dar um murro no seu nariz! Eu respondia.

Depois de algumas tentativas, finalmente depois de vários golpes o nariz foi acertado. Só tinha um pequeno problema: o nariz não foi de meu amigo e sim o meu. Que ironia, tentei dar um soco e acabei levando um contra golpe! Aquele garoto que dizia ser meu amigo me deu um soco no meu nariz! Pior do que sentir a dor foi ver o meu nariz sangrando, durante algum tempo. Totalmente tomado pela ira que jorrava pelas minhas narinas, comecei a correr atrás dele, mas era inútil, então decidi ir para casa lavar o rosto.

Cheguei a casa encontrei a ENI, a filha do dono do quintal, onde morávamos. Ela me ajudou a lavar o rosto e depois fui dormir. É isso mesmo, fui dormir porque minha mãe não gostava de brigas e eu sabia que ela tinha dó de me acordar. Então dormir era a solução para que ela não me batesse, afinal já tinha apanhado na rua, não seria justo apanhar duas vezes. Mas desta vez a tática do sono não funcionou, minha mãe me acordou com uns bons tabefes.

Também, quem mandou trocar uma amizade por um copo de suco de maracujá.


Por Luiz Rodrigues dos Santos Neto

Café com farinha

Na verdade, seria até uma lista considerável de quitutes e sabores que me religam a sentimentos da infância: bolo de fubá, amendoim cozido, cuscuz, batata doce, pipoca, etc.

Mas há algo que hoje me faz recordar o quanto heróica e sábia é minha mãe.

Nestes dias, para ser mais preciso no curso de contos africanos e árabes, no dia 28 de abril de 2007, quando se falava das lembranças afetivas em respeito aos alimentos, a Nilda falou da segurança que os alimentos ou o momento das refeições nos traz.

Lembrei-me de uma época em que minha mãe nos dava café com farinha, devido à escassez de alimentos em casa. No faltava o arroz e feijão, mas sabe aquele lanche da tarde em que a família (neste caso eu, meus irmãos e minha mãe) partilhava em frente à TV?

Então, neste momento minha mãe entrava com sua criatividade e nos ensinara a comer farinha e tomar café juntos, diz que fazia muito isto na cidade de Inhambupe – Bahia, quando ainda era criança, e que sua mãe também lhe ensinara. Nossa!!! E como parecia um lanche da tarde maravilhoso!!! Pois, transformava o simples em algo tão gostoso, que nem parecia apenas um café com farinha.

Além desta maravilhosa sensação, vinha um sentimento de proteção que somente as mães sabem dar, não desmerecendo meu pai que se esforçava muito em trazer alimento para dentro de casa.

É incrível como alguns gestos podem trazer uma sensação tão boa.

Café com farinha, o meu lanche de tantas tardes, trazia-me paz e segurança.

Edson Silva de Jesus, 09/05/07

Memórias Polvilhadas

Não era gosto de dia-a-dia, e sim de dias especiais. Tão especiais que até dá para contar nos dedos.

Férias escolares com direito a viagem! Acho que foram três no máximo, longas viagens de duas noites e um dia e muitas paradas em cidades pequeninas e aconchegantes.

De São Paulo a Sergipe, muitas expectativas se acumulavam: encontro com a única avó ainda viva, paisagem de secura, memórias de mãe retirante...Viagens pontuais, mas extremamente providenciais.

A cada parada um novo ar, um novo sotaque, novas lembrancinhas. Mas havia um gosto que era comum a todas: o POLVILHO! Da saída de São Paulo, ainda em Aparecida do Norte; passando por Minas, de onde provavelmente ele se espalhou; até chegar ao Nordeste, ele vai dando o gosto à viagem...

Apesar de degustar muitas outras delícias e gostos estranhos ao meu paladar após a chegada em Poço Verde - SE, de buchada de bode a umbunzada, foi o leve sabor do biscoito de polvilho que ficou.

Só depois soube de minha avó paterna mineira. Talvez dela tenha herdado esse gosto, justamente quando ia de encontro à avó nordestina!

Quando em minha terra natal, o ato de experimentar biscoito de polvilho remete a lembrança de encontros esfusiantes e despedidas dolorosas, que não se repetiram muitas vezes, entre minha mãe e minha avó.

Só depois vim perceber minha fissura pela mandioca, e por todos os produtos derivados dela, inclusive o polvilho. Hoje penso que, degustar o biscoito de povilho durante a viagem de encontro de minhas raízes, também pode simbolizar o (des)enraizamento da mandioca, matéria-prima minha.

O mais curioso é que a primeira história que consta em minha memória, contada pela professora ainda no prezinho, é sobre o surgimento da mandioca! Mas esta eu conto depois....

Essa história de memória de alimentos é mesmo impressionante!


Essa história de memória de alimentos é mesmo impressionante!

Finalmente vou contar a minha. Entre tantas tive que escolher uma, mas antes quero dizer que aqueles bolinhos de chuva que mamãe fazia eram interessantes porque nós ficávamos achando a forma de um objeto qualquer ou de um animal a cada bolinho que mamãe colocava no prato.

E tem outra memória: sempre que ela ia fazer tutu de feijão, nós (eu e meu irmão) pegávamos na mão e apertávamos para fazer bolinhos em forma de tatu.

Essas memórias são mesmo de fazer encher os olhos de lágrimas pois bate uma saudade daquela época! Até posso deixar uma sugestão para o “dia das mães”. Que tal no encontro de domingo, dia 13, para recordar essas lembranças? Claro que não se pode esquecer do presente!

Mas a memória que eu reservei é bem legal. Acho!

Quando eu era pequeno (uns 8 anos, mais ou menos), minha mãe adorava me dar ovos de codorna. Todo dia eu tinha que comer um, cozido, é claro ! E por trás disso, tinha algo interessante. Todo dia, ela me pedia que eu fosse recolher os ovinhos no galinheiro das codornas (tínhamos umas 6), mas antes eu tinha que alimentá-las. Acho que era um jogo.

Bom, não pára por aí: ela ainda dizia que os ovos eram para me deixar inteligente na escola. Se todo dia eu comesse um ovinho, ficaria mais inteligente. Acho que havia outro jogo dela, porque ela dizia que eu tinha que estudar, ler o caderno, prestar atenção na aula, essas coisas, para o ovo fazer efeito. E eu acreditava! Não sei o que era certo, só sei que funcionava.

O pior vem agora.

Um dia em que nasceram 4 filhotinhos de codorna, perguntei à minha mãe se eu poderia brincar com elas e ela, que parecia brava mas no fundo era muito carinhosa, disse que sim, desde que eu não as machucasse.

Então, eu as trouxe para o sofá e fiquei brincando. Não sei o que pôde ter acontecido, acabei machucando uma delas. Minha mãe ficou verde de raiva. Pegou uma vara que chamava de vara de marmelo – não sei onde ela achava, parecia que tinha uma plantação. Essa vara, quando ela batia, doía que só !

Eu que queria ser mais esperto, saí correndo. Entrava pela porta da cozinha e saía pela porta da sala e ela atrás, parecia brincadeira de pega-pega. Mas que nada, era sério mesmo !

Minha mãe foi mais inteligente que eu (acho que ela comia 2 ovos por dia !), e fechou a porta da cozinha, me encurralou. Aí....

Não sei porque, hoje eu adoro ovos de codorna. Há quem diga que ele faz outros efeitos; não sei, só sei que gosto.

Juvenal Domingos, 05/05/07

As coisas gostosas que minha avó fazia


Quando lembro do passado, sempre vem à minha mente as coisas gostosas que minha avó fazia, e a viagem de trem que fazíamos para visitar a bisa. Ela morreu aos 108, já estava um pouco esclerosada, mas durinha.

Um dia ela deu carreira atrás de mim com uma vassoura e ficou um tempão embaixo do pé de manga esperando eu descer. Também lembro que ela varria o terreiro, com sua vassoura de galhos, às 5h da manhã, religiosamente.

O que eu gostaria de trazer, de verdade, eram os beijus feitos no forno da casa de farinha. A casa era arrendada de um fazendeiro vizinho para torrar farinha porque minha avó ia para a roça 2 vezes por ano, julho e dezembro, e meus tios combinavam e colhiam um lote de mandioca para fazer farinha e beiju seco. Esses beijus alimentavam os seus 12 filhos.

Mesmo sendo criança eu participava de todo o processo. Aliás, todo não porque meus tios não deixavam as crianças arrancarem os pés de mandioca porque deixávamos a raiz dentro da terra. Então, na hora de descascar a mandioca , nós fazíamos a “meia sola” e as mulheres, com as mãos mais limpas, faziam a segunda parte. Depois da mandioca toda raspada, era transportada para a casa da farinha , onde era ralada. Era preciso muito cuidado, tive um tio que perdeu o dedo na máquina. Após colocar a mandioca ralada na prensa, as mulheres aparavam a água em bacias. Nesse dia, nós dormíamos na casa de farinha envolvidos neste trabalho. Eram tantas histórias!

Pela manhã, recolhiam as bacias. A tapioca se concentrada no fundo e a água que estava por cima era jogada fora. Com as mãos, soltavam a tapioca que estava concentrada e, após uma secagem no chão do forno, começava-se a assar os beijus que seriam servidos com um café quentinho.

Essas são as lembranças mais gostosas das minhas férias na roça. Como não tenho os beijus, decidi trazer as broas de milho que minha avó fazia para tomar com café, ela não gostava de pão. “Não tem sustância”, dizia . Quando havia beiju, ela fazia as broas e na falta dela, era farinha com feijão logo pela manhã.

Lembro ainda que a vó não gostava que eu ajudasse, meu sonho era poder modelar aquelas broas, no entanto ela nunca deixava, dizia que era coisa de adulto, assim como ela não deixava nem eu pegar na colher de pau para mexer o doce de goiaba vermelha, pois ela dizia que se duas pessoas mexessem o doce desandava.

Desandar? Que palavra esquisita! Ficava pensando o eu significava isso, mas não questionava, ficava quieta no meu canto porque acreditava em tudo que a vó falava e esperava ansiosa pelas broas e o doce de goiaba.


Cristina Maria de Jesus Lima, 28/04/2007

Elizandra e Elizângela arrancavam mudubim

Morávamos no interior da Bahia, numa cidade pequena. Todos da nossa família moravam na área rural e quando as férias de julho chegavam, era época da colheita do amendoim.

Íamos passar as férias na casa dos nossos avós ou da nossa tia. Mas tínhamos que acordar cedo, junto com os adultos para ir “arrancar mudubim” – era assim que chamavam para colher o amendoim. Não íamos juntas não, era uma semana para cada uma.

Eram muitas as novidades. Tudo o que aprendíamos na escola levávamos para a roça. E para saber se tudo o que diziam na escola era verdade, perguntávamos para o nosso avô. Por exemplo, sobre o orvalho nas folhas, ele disse que eram lágrimas do céu. Achava que era por isso que tinha neblina, mas não entendia o porquê da fumaça ao amanhecer.

O amendoim sempre fez parte da nossa vida, e na infância foi muito mais presente. Tenho lembrança de quando o meu pai vendia amendoim cozido nas feiras das cidades vizinhas. Uma de nós sempre ia com ele para ajudar. Adorávamos! Era um bom pretexto para passearmos.

Elizângela e Elizandra Batista de Souza, 28/04/07

Bolinhos de Chuva

Quando nos foi sugerido trazer um lanche que tivesse alguma importância afetiva, de imediato me veio à lembrança os bolinhos de polvilho que meu pai fazia.

Quando criança, ele nos acordava aos domingos com seus bolinhos, ninguém conseguia ficar na cama com aquele cheirinho vindo da cozinha.

Meu pai é de família mineira de 15 irmãos. Todos eles sabem fazer esta iguaria, as outras gerações também já aprenderam e estão passando a receita para frente...

A caminho do curso, encontrei duas colegas que ficaram muito felizes em saber que eu trazia os tais bolinhos pois, da mesma forma que eu, elas que também são de famílias mineiras, têm boas recordações dos bolinhos e suas infâncias.

É muito importante que cada de nós possa resgatar as memórias e histórias de nossas famílias. Histórias que fizeram parte da nossa criação e que servirão de alicerce para o resto de nossas vidas e dos nossos filhos.
Suzi de Aguiar Soares, 28/04/07

Quibes fritos com coalhada seca

Quando eu ia à casa de minha avó paterna, quando ela ainda era forte e ativa, eu via o "pacotinho" de pano branquinho amarrado à torneira da pia... pingando.

Era uma delícia quando ela servia, juntamente ao pão "Pitta", pequenos quibes fritos na hora, a coalhada seca...

Hoje, meus filhos já a misturam com outros temperos: azeite, sal e orégano.

Simone Elias, 17/03/07

Pão-doce às terças-feiras

Lembro-me da primeira série do ensino fundamental. Eu tinha 8 anos e fui morar com a minha avó e meus tios para poder freqüentar a escola, uma vez que meus pais moravam em um bairro afastado, sem acesso à escola.

No bairro em que eu morava com meus avós ainda não havia padaria. Então, todas as terças-feiras, meus avós pegavam a charrete e íamos à feira. Era ali que ela comprava os “pães-doces” para eu levar de lanche na escola. Os primeiros eram macios, mas, com o decorrer dos dias, os últimos iam ficando duros. Mesmo assim, eu os comia e esperava a próxima terça-feira.

Regina Aparecida da Silva, 17/03/07