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III Festival Sul-Americano da Cultura Árabe, de 18 a 31 de março/12, em SP



A terceira edição do Festival Sul-Americano da Cultura Árabe – que será realizado entre 18 e 31 de março, nas cidades de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro – incluiu na programação oficial a leitura dramática encenada de Mohamed, o latoeiro”, de Gilberto Abrão. A obra, publicada pela Primavera Editorial, está sendo adaptada para o teatro pelo ator Yunes Chami. A leitura está prevista para o sábado, 31 de março, às 16 horas, no Espaço Bibliaspa (rua Baronesa de Itu, 639 - São Paulo).

De 18 a 31 de março, as cidades de São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro serão “invadidas” por eventos que disseminam a diversidade da cultura árabe. O III Festival Sul-Americano da Cultura Árabe trará cinema, exposições, fotografia, colóquios, música, teatro, palestras, dança, artes plásticas, contação de histórias, caligrafia árabe e literatura com o objetivo de promover uma reflexão sobre as contribuições dos imigrantes no Brasil e fortalecer o vínculo entre a América do Sul e os países árabes. A proposta central é dar visibilidade a questões como o respeito à cultura e aos laços históricos, incentivando uma cultura de paz por meio da aproximação dos povos. No Brasil, a influência dos povos árabes é nítida – o país abriga mais de 16 milhões de árabes e descendentes, sendo que 2,5 milhões vivem em São Paulo. Os eventos acontecem em centros culturais e de pesquisa, escolas, cineclubes, universidades e associações

Como parte do encerramento do III Festival Sul-Americano da Cultura Árabe, o ator Yunes Chami fará uma leitura dramática
encenada do livro Mohamed, o latoeiro, do escritor Gilberto Abrão. Yunes – que está adaptando a obra para o teatro com o apoio da Bibliaspa – fará a apresentação em 31 de março, às 16 horas, no Espaço Bibliaspa (rua Baronesa de Itu, 639 - São Paulo).
Programação completa:

Aladdin, o musical

A história do órfão Aladdin, personagem do clássico da literatura árabe "As Mil e uma Noites", chega ao palco do Credicard Hall, na zona sul de São Paulo.

Em versão musical, a montagem, com efeitos especiais, mais de 20 atores no palco e 230 peças de figurino, promete agradar os pequenos.

No espetáculo, as travessuras de Alladin são narradas por Sherazade, que precisa contar interessantes histórias ao rei da Pérsia para não ser morta, já que ele, ao ser traído por sua mulher, decretara que desposaria uma jovem todos os dias e a sacrificaria ao amanhecer.

Assim, a contadora de histórias distrai o rei com Aladdin, garoto procurado pelo feiticeiro Jaffar, que pretende convencê-lo a pegar uma lâmpada mágica que está em uma tenebrosa gruta.
No decorrer da trama, a princesa Jasmine e o gênio trapalhão cruzam o caminho do menino, marcado por muita confusão e fantasia.

Credicard Hall - av. das Nações Unidas, 17.955, Vila Almeida, zona sul, São Paulo, SP. Tel.: 4003-5588. 2.299 lugares. Sáb. (17): 18h. Dom. (18): 17h. Até 25/7. Ingr.: R$ 50 a R$ 120. 90 min. Estac. (R$ 25 - convênio). Classificação etária: livre.

Sarau Poético em homenagem a Mohamad Al Kaddak

O Movimento Poético, em São Paulo, convida a todos/as para o Sarau Poético em homenagem ao Diretor do Centro Cultural Árabe Sírio, Mohamad Al Kaddak.

O evento ocorrerá quarta-feira, dia 9 de dezembro de 2009, às 19h30, na sede do Centro Cultural Árabe Sírio - Rua Augusta, 1053, São Paulo - SP.

Na ocasião será lançado o livro ANTOLOGIA SARAU POÉTICO 2009.

Profeta, O e O Jardim do Profeta


Esse volume reúne duas obras-primas, em versões completas, que confirmam a impressionante atualidade das mensagens de Khalil Gibran, autor de tratados filosófico-literários que conseguem falar dos temas mais complexos de maneira clara e poética. Um escritor que deve ser lido e relido constantemente, pois a cada leitura revelam-se novas faces do mistério da existência humana.

Gibran Khalil Gibran, nascido em 6 de janeiro de 1883; Bicharre, Líbano10 de abril de 1931, Nova Iorque, Estados Unidos da América), também conhecido simplesmente como Khalil Gibran, foi um ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo.

Profeta, O e O Jardim do Profeta
Khalil Gibran
Editora Claridade

Danças do Oriente

com Cláudia Parolin, Dúnia La Luna, Fairuza e Simone Takusi



Do tradicional ao moderno, do clássico ao folclore e incluindo as fusões, o show aborda os diversos estilos existentes na Dança Oriental interpretados por bailarinas com diferentes históricos proporcionando uma apresentação rica e dinâmica. Por meio da dança, dos sons, dos sabores e do ambiente embarque nessa viagem a terras distantes que inundam nossa imaginação de beleza e magia.

Sábado, Dia 03/10, às 21h30
Entrada: R$15,00
Av. Miruna, 396 - Moema
Reservas: 5041-9428/ 7274-9040
Produção e Realização: Cristina Antoniadis

Árabes somos nós


Que o Brasil é terra acolhedora ninguém duvida. Difícil mesmo é acompanhar as revoluções silenciosas por meio das quais os imigrantes desenham nosso rosto.

Nossas origens árabes são ainda desconhecidas e distantes. Turcos? Têm gosto especial por mascatear? Dominam uma língua estranha? São todos muçulmanos? Em situações assim, não há melhor caminho do que conhecer sua história.

mosaico que o dossiê “Árabes no Brasil” oferece é de uma riqueza estonteante. Oswaldo Truzzi puxa os fios que já chegaram atados aos portugueses que conquistaram a América moldados pelas influências árabes. Mais tarde, levas de imigrantes sírios e libaneses descarregam, além desses novos grupos, traços culturais que viajam por todo o Brasil. Dos centros urbanos aos confins da Amazônia, explica John Karam, surpreenderiam com sua arte de negociar. Paulo Hilu escreve sobre a presença da religião católica, que muitos deles professavam. A formação de nossas palavras e linguagem não escapou dos árabes, contam Evanildo Bechara e Paulo Farah. Outros traços – desta vez na arquitetura, como lembra Rossend Casanova – surgem na valorização das linhas mouriscas, como aquelas desaparecidas à beira da Baía de Guanabara com a destruição do Pavilhão Mourisco.Na barca dessa nossa história cabem mais imigrantes. Ronaldo Costa Couto apresenta Francesco Matarazzo, italiano que tropeça no azar quando desembarca, mas inverte os caprichos da fortuna.


Sabrina Gledhill revela as estranhas imagens que o Brasil mereceu na literatura inglesa, estimulando a travessia de muitos britânicos. Nem Sherlock Holmes escapou.


As trocas não param nem mesmo dentro das fronteiras. Celebrando o centenário de Mestre Vitalino, Angela Mascelani percorre a trajetória do artesão que, com delicadeza, foi capaz de amalgamar o erudito e o popular em figuras da gente do Nordeste agrário.



Carta do Editor - Nº 46
Luciano Figueiredo

Revista História da Biblioteca Nacional, nas bancas

Bate-papo com o escritor francês Michel Ocelot no Sesc Pompeia

Ultrapassando as fronteiras geográficas, o idioma francês misturou-se com outras culturas, ganhou sotaques e novas identidades contemporâneas. Como estamos no Ano da França no Brasil, o Sesc São Paulo promove a Caravana dos Autores e traz ao país renomados escritores franceses, como Michel Ocelot, autor de Azur e Asmar, publicado por Edições SM.


Também diretor de filmes de animação, em Azur e Asmar, Ocelot trata de temas ligados ao autoconhecimento, à amizade, ao respeito pelas diferenças e à superação de dificuldades. Sucesso no cinema, este livro conta a história de Azur e Asmar, que crescem como irmãos, mas são separados repentinamente. Azur viaja além-mar para conquistar seu amor. Porém, ao chegar, é rechaçado por ser estrangeiro. Reencontra Asmar, agora um cavaleiro importante, mas ele recusa sua amizade. Mesmo assim, partem juntos numa viagem tumultuada. E descobrem o valor e a importância da verdadeira amizade. O livro foi considerado Altamente Recomendável pela FNLIJ 2007 e é indicado para leitores iniciantes, a partir dos 6 anos.

O bate-papo com Michel Ocelot acontece no dia 22, quarta-feira, às 20h, na choperia do Sesc Pompeia. O evento é gratuito e livre para todos os públicos.

Os sósias do rei

Soyuti, célebre historiador árabe de origem persa que viveu na segunda metade do século XV, escreveu: “O califa Al-Motassim, de Bagdá, merece ser apontado entre os soberanos mais gloriosos do mundo!”

Para aqueles que vivem alheios aos episódios da vida árabe, a opinião do erudito Soyuti sobre o emir Al-Motassim parece repintada com as cores berrantes do exagero.

Não vale a pena discutir, meu amigo, sobre a validade e a justeza desta ou daquela opinião. Em nossas tendas jamais acendemos o narguilé venenoso das controvérsias inúteis. Vou apenas recordar um singular episódio ocorrido com o famoso califa que o sábio historiador pretendeu incluir entre os “mais gloriosos do mundo”.

Conta-se (Alláh, porém, é mais sábio !) que Al-Motassim, califa de Bagdá, chamou um dia o seu prefeito e disse-lhe:

- É verdade, ó prefeito, que vivem nesta cidade, e já foram vistos pelos meus amigos, homens extremamente parecidos comigo ?
Respondeu o prefeito:

- É verdade, sim, ó emir dos crentes ! Conheço dois muçulmanos que são como retratos vivos de Vossa Majestade. Um deles exerce a profissão de pasteleiro e outro é fabricante de tapetes. É possível, porém, que existam outros sósias de Vossa Majestade sob o céu desta gloriosa Bagdá.

- Pois faço grande empenho em conhecer os meus sósias – declarou o rei. – Convida-os a uma reunião no palácio, pois a todos darei, sem exceção, ricos presentes.
Aquela ordem do monarca foi atendida com a maior solicitude e presteza. O prefeito fez anunciar, pelos pátios das mesquitas, bazares e pelos recantos longínquos da grande cidade, que todos os homens que se julgassem parecidos com o califa deveriam comparecer, em dia e hora certos, ao divã das audiências. O poderoso emir prometia generosas recompensas.

O caso despertou grande curiosidade.Quantos sósias teria, afinal, o rei ?
No dia marcado, no suntuoso salão das Audiências, o poderoso monarca, rodeado de seus vizires, cádis e altos funcionários da corte, recebeu os pretendentes, que eram, aliás, me número de sete !

Havia, entretanto, uma particularidade que fez sorrir o rei e causou certa impressão de constrangimento aos cortesãos. Dos sete candidatos aos prêmios, seis eram parecidíssimos com o monarca: o sétimo, porém, era inteiramente diferente.

Os sósias foram, um a um, recebidos em audiência e chamados para junto do trono. A cada um dirigia o rei palavras de estímulo, bondade e simpatia. E todos partiam radiantes de alegria com vinte dinares de ouro e um belo turbante de seda.

Chegou, finalmente, a vez do último – o tal cuja figura em nada se assemelhava à do rei.
Os vizires e xeques entreolhavam-se espantados.
O pretenso “sósia”, num andar tranqüilo e firme, aproximou-se da larga escadaria de mármore cor-de-rosa que conduzia ao trono.

- Meu amigo – disse-lhe o bondoso soberano árabe - , sei que há enganos sérios na vida e que não raramente o homem é levado a errar, sem querer, nas coisas mais simples e pueris. O teu comparecimento a este concurso só pode ser explicado por um lamentável equívoco de tua parte. Não quero admitir a hipótese de teres sido inspirado pelo desejo audacioso de zombar de mim. Ora, o meu convite era dirigidoexclusivamente àqueles que se julgassem parecidos comigo, e pelo que me é dado observar somos inteiramente dessemelhantes. Repara bem, meu amigo. Sou corpulento, alto e forte; és, ao contrário, franzino, baixo e fraco; tenho os olhos negros e a pele morena; os teus olhos são azulados e a tua pele é clara; o meu rosto é emoldurado por uma pujante barba preta e tu és inteiramente imberbe ! A única semelhança, ó muçulmano, que se pode observar entre nós, é sermos ambos homens, isto é, servos de Allan ! E, assim, não terás direito ao mesmo prêmio que foi dado aos outros seis. Receberás um prêmio bem menor. Um dinar de prata.... e nada mais.

O homem de olhos azuis, depois de ouvir com a maior serenidade a sentença do caliga, inclinou-se respeitosamente e assim falou:

- Agradeço o vosso dinar, ó comendador dos crentes, mas não posso aceitá-lo. Não tenho direito a recompensa alguma. Fui iludido pelas aparências. Quando aqui compareci julguei, realmente, que éramos muito parecidos...

- Parecidos! – estranhou o rei com certo movimento de impaciência. – Por Alláh! Estavas, então, certo de tua parecença comigo?

- Sim, ó emir dos crentes ! – confirmou, com absoluta firmeza, o desconhecido. – Certíssimo ! Julgava que havia entre nós grande parecença. Essa parecença, porém, não era física – pois a semelhança física que acaso exista entre duas criaturas o tempo facilmente destrói que e aniquila. Certo estava de que éramos unidos por uma profunda semelhança de sentimento e de espírito, isto é, julguei que as nossas almas fossem como duas almas gêmeas. Sou inteligente e estava convencido de que éreis inteligentes também. Sou sincero, generoso e simples, e julguei que éreis, do mesmo modo, sincero, generoso e simples.

- Basta – interrompeu placidamente o rei. – Se assim pensavas, não houve, asseguro, erro algum de tua parte. Somos, realmente, muito parecidos. É grande a afinidade espiritual que nos aproxima. E posso demonstrar-te facilmente. Sou inteligente, pois compreendi muito bem a profunda lição moral que acabas de me dar; sou generoso, pois receberás de mim uma recompensa vinte vezes maior do que a que esperavas; sou simples e sincero, pois não hesito em reconhecer o meu erro diante de meus amigos e auxiliares.

Era assim, com destemor e sinceridade, que pensava e agia o magnânimo califa Al-Motassim, príncipe dos crentes.

Não nos parece, portanto, envolver o menor traço de exagero o elogio formulado pelo historiador Soyuti (que era Árabe, mas de origem persa).

Al-Motassim foi glorioso entre os mais gloriosos !

Uassalã !
(De Maktub!)

Texto: Tahan, Malba – Os melhores contos – Ed. Record
Foto: Reprodução: gêmeos Leo e Ryan, nascidos em 11/07/08, na Alemanha


Dança, Identidade e Guerra


São necessários muitos anos de audição para captar as constantes alterações rítmicas das músicas orientais, apurado senso do significado do que se está dançando e uma boa dose de conhecimento do que representam os sofrimentos das guerras e os preconceitos na vida do povo árabe****.

Essencialmente feminina essas danças podem ser acompanhadas por homens, com movimentos masculinos, destacando-se o tórax, ombros e braços. A dançarina deve ser soberana, elegante, manter postura antes, durante e depois da apresentação. Ter simpatia, charme e principalmente muita humildade.

Quanto mais experiente for a dançarina mais sucesso faz. A cultura árabe respeita a mulher madura, a exalta e admira, não discrimina a mulher de idade, tem preferência pela mais cheinha, do tipo gostosa, matreira e vaidosa. Em casas noturnas, restaurantes e festas árabes é muito comum homens convidarem as mulheres para dançá-las, é o desafio do homem em provocar a sensualidade da mulher. Um jeito árabe de paquera (flerte), uma vez que os costumes e valores morais da cultura são extremamente rígidos.

O povo árabe é totalmente contra os padrões estéticos do Ocidente, que impõe a mulher ser jovem e magra, tornando a maioria delas infelizes, isto sim é submissão. Os valores espirituais da cultura abominam a vulgaridade, considerando-a ofensiva, enaltece a auto-estima feminina, exalta a virilidade masculina, através de suas músicas e danças com muita sensualidade.

No Brasil em 1979, as danças étnicas árabes foram introduzidas pela mestra palestina Shahrazad Shahid Sharkid iniciando-se assim um trabalho único no mundo através da Raks el Chark. A meta de seu trabalho era a pesquisa e o estudo minucioso do corpo feminino através do registro das mutações ocorridas apartir da aplicação e execução de exercícios de sua elaboração. Havia também no trabalho de Shahrazad uma enorme preocupação com a formação de crianças e adolescentes para dança do ventre, procurando não confundir o trabalho corporal adulto com o infantil, respeitando-se seus espaços e suas mentes cronologicamente viabilizando a aplicação de exercícios de fisioterapia, com o cuidado de não agredir o universo infantil pelo estímulo prematuro para a vida afetiva e sexual.

Estas mutações são parte do infinito trabalho de anatomista da mestra artesã, uma escultora de corpos, sempre com a preocupação de não preterir determinadas partes do corpo, o que normalmente acontece com algumas danças ocidentais, onde para adquirir a desenvoltura exigida é necessário tornar cartesiano o corpo feminino, colocando-o em uma moldura onde todas são iguais.

Toda dança tem, evidentemente, o cunho sagrado, apesar do ocidente frequentemente utilizá-las erroneamente e propositadamente para vender sexo, padrões estéticos e para exploração do corpo da mulher e infantil, profanando os arquétipos religiosos. O homem sempre desejou aquilo que era de Deus e tenta adquirir, através do manto da "commoditização erotizada", tudo aquilo que não consegue obter pela conquista da espiritualização.

Danças Folclóricas e de Raízes

As "Danças Folclóricas e de Raízes" possuem um poder indiscutível de aglutinação, pois constituem a manifestação do comportamento cultural, histórico e social dos indivíduos. Refletem em sua construção coreográfica a soberania, o direito, a dignidade de vida dos povos das mais diferentes etnias, cores e credos, além de contribuir diretamente na socialização e educação de crianças e adolescentes principalmente pelo prazer que proporcionam. Resgata e eleva a auto-estima. Portanto, devemos ter muito respeito por estas manifestações que são verdadeiros alicerces para o desenvolvimento da consciência sócio-ambiental para comunidades, destacando-se a importância de trabalhos em grupos, aparelhando-as com estes importantes instrumentos necessários para a formação do caráter cultural e intelectual, e apurando o senso crítico pela observação e audição.

No artigo do semanário Al-Ahram, o coreógrafo Omar Barghouti discuste o significado da cultura e educação na preservação da identidade nacional e o espírito humano ao mesmo tempo. A criatividade e aprendizado são vitais ao projeto de sobrevivência, argumenta Barghouti, descrevendo como, mesmo sob o cessa fogo, o povo da sua vizinhança de Ramallah precisa de livros, música e jogos; e mesmo nos campos de refugiados, os pais cujas vidas e posses foram dizimadas estão preocupados em restaurar as escolas para seus filhos. Mesmo com esta cidade ocupada e destruída, Omar Barghouti mantém sua atuação na dança.

Barghouti põe esses valores num contexto histórico – os palestinos que foram forçados a fugir de suas casas em 1948 são assombrados por seu fracasso em resistir, ele diz. Ele explica que esse fracasso é atribuído à "consciência limitada" do tempo "a qual nesse contexto entende-se como uma combinação de ignorância, analfabetismo, falta de aptidões essenciais, como também a falta de um sentido claro de identidade. Portanto, cultivar uma tradição de educação e a prática da cultura é a chave para a sobrevivência dos palestinos como um povo: "os palestinos não podem se dar ao luxo de não fazer parte da reabilitação cultural na sua batalha ampla de reconstrução e luta pela emancipação," ele escreve. Neste ensaio comovente, Barghouti nos supre com a imagem da dança como um símbolo da sobrevivência e renovação palestina.

Nossa história sobre as danças étnicas árabes é muito mais longa, mas deixo esta contribuição para a reflexão e conto com todos para acompanharem este resgate da memória ancestral em busca da equidade social, dos valores comunitários e coletivos e, da importância de se construir uma economia justa e equilibrada como foi a dos nossos antepassados, quando a felicidade era pautada por uma "segurança alimentar" ordenada e coordenada pelas forças da natureza - com seus ciclos hidrológicos. Ao cultuar a sensualidade como uma dádiva de Deus e exorcizar o erótico profanado e degradador da natureza humana.

Num tempo em que o ser humano fazia parte do meio ambiente, e não o partia ao meio!


NOTA:

*Raks = dança Charq = leste, oriente. Charqi = oriental , portanto, Raqsa Ach-Charq (ou Ash-Sharq) é Dança do Oriente, Dança do Leste; Raqsa Charqyi = Dança Oriental. Raqsa Ash-Sharq é a pronuncia correta sendo Raqsa Al Sharq, para os egípcios e Raqsa Charkyi para os libaneses. Consulta Carlos Tebecherani Haddad - professor e pesquisador do idioma árabe da Universidade Católica de Santos.



** Belly Danse em francês = bela dança e Belly Dance em inglês = dança do ventre.



***São consideradas semitas todas as tribos beduínas, incluindo-se a etnia hebraica, cuja religião é o judaísmo. Com a migração destas tribos nômades entre outras que se miscigenaram, originam-se os ciganos do ocidente – e com a perseguição dos hebreus no Oriente Médio, advém a expressão "judeu errante", ou seja, refere-se aos judeus que partem em busca de uma terra, uma nação. (Lactho Drom – Michele Ray-Gravas. La Musique des tsiganes du monde de l’inde a l ‘espagne)


****O histórico das tribos beduínas está registrado através da cultura oral. Encontram-se estas narrativas em suas músicas, nas danças, nos contos que passam de pais para filhos, nos livros sagrados como O Alcorão, escrituras Baha’i, na Bíblia, no Talmut etc.. também nos poemas de Rumi, Gibran Kalil Gibran, entre outros poetas árabes e persas. Os cantos beduínos enaltecem o meio ambiente e a mulher, relatam o amor do povo nômade pelos ecossistemas desérticos, suas paixões. A cantora Om Kalthoun expressou com toda essência de sua belíssima voz a história desses povos que encantam o mundo por sua passividade, benevolência e profunda sabedoria milenar. Om Kalthoun morreu cultuada como a "Mãe do Egito". Uma feminista amada e respeitada. Jamais conseguiram fazer-lhe calar a voz!

O contador de histórias


Ahmad era carpinteiro, ofício que aprendera com seu pai. Fascinado pela leitura, certo dia viu entre suas mãos um livro que relatava as peripécias de Antar bin Chaddád, grande herói e poeta da célebre tribo árabe dos Bani Abas. Os contos o cativaram tanto que ele os lia diversas vezes ao dia ao ponto de, pouco tempo depois, saber recitá-los de cor. Também veio a vontade de contá-los em público para que outras pessoas pudessem desfrutar do prazer que sentia ao ouvir as aventuras de Antara.

Certa noite, no café an-Nawfara, aonde ele costumava ir todas as noites após o trabalho, Ahmad percebeu que o dono do local estava angustiado porque o contador de histórias da casa partira de manhã, rumo a Maalula, uma cidade na Síria onde ainda se fala a língua de Cristo (o aramaico). Ele precisa resolver algumas pendências familiares e talvez demorasse bastante para voltar.

Quando Ahmad propôs ao proprietário do café que ele substituísse o contador de histórias recém-sumido, Khaled aceitou na hora. De fato, ele não tinha escolha. Como poderia explicar aos clientes que vinham todas as noites, ansiosos, que o contador sumira sem previsão de retorno?

Ahmad sentou-se na cadeira reservada ao contador e se pôs a narrar histórias maravilhosas para o encanto da platéia, que bateu palmas e o parabenizou entusiasmada. O encanto era geral.

O proprietário do café ficou impressionado com a apresentação e logo fechou um acordo com Ahmad: daquele dia em diante, depois da oração do Maghrib (que se faz logo após o pôr-do-sol), o novo contador de histórias recitaria as peripécias de Antara e de outros heróis árabes e poderia imitar os sotaques dos locais por onde seus personagens passavam. “Kífak?” dizia seu herói na Síria, para perguntar como alguém estava. E no Egito, para a mesma questão, perguntava: “Izáiak?” Já no Kuait dizia “Shlônak?”.

Ahmad tinha um grande amigo que nascera na cidade de Bagdá, no Iraque, e por isso era chamado de Al-Bagdádi (o bagdali). Ele adorava as hitórias de Antara e não faltava nunca ao café para ouvir Ahmad contar as aventuras de seu ídolo favorito.

Certa noite, Ahmad narrou um episódio sobre o conflito entre os Bani Abas, a tribo de Antara, e os Bani Amara, seus inimigos mais famosos. Durante uma batalha descrita com emoção pelo contador de histórias e acompanhada com atenção pela platéia, Antara era capturado e feito prisioneiro pelos Bani Amara.

Como de costume, o contador interrompeu a história no auge da narrativa prometendo ao público ansioso que relataria o final daquela saga no dia seguinte. Al-Bagdádi foi embora transtornado, sem conseguir parar de pensar no destino de Antara. Caminhou pelas ruas estreitas de Damasco, angustiado, e decidiu voltar para casa. Quando sua mulher lhe deu as boas-vindas, com o sorriso de sempre, ele a ignorou e recusou a comida que ela preparara. “Estou sem fome, sem sede e sem sono. Não quero nada”, disse-lhe. Enquanto revirava na cama e o tempo se arrastava, minuto a minuto, Al-Bagdádi pensava no que poderia fazer para libertar Antara.

No meio da noite, levantou-se, trocou de roupa e foi até a casa de seu amigo, o contador de histórias, com o objetivo de salvar Antara. Bateu na porta com força enquanto gritava: “Como é possível que você consiga dormir tranqüilamente depois de ter jogado Antara atrás das grades? Pelo amor de Deus, acorde já e o liberte. Não consigo pregar o olho sabendo que Antara foi detido por seus inimigos. Se o problema for o dinheiro, não se preocupe. Vou lhe pagar o que o café lhe paga no dia-a-dia. Ou até mais, se você exigir".

Ahmad abriu a porta e percebeu que seu amigo estava mesmo desesperado. É claro que resolveu continuar a história exatamente de onde havia parado. Ele contou como Antara derrotou todos os seus inimigos, recuperou os bens de sua tribo e ainda salvou sua amada, Umm Kalthum.

Al-Bagdádi soltou um profundo suspiro de alívio, como se tirasse um imenso peso do peito, e agradeceu Ahmad de todas as formas, com todos os salamaleques possíveis. Quando fez menção de pagar o amigo como havia prometido, Ahmad recusou o dinheiro e disse: “Saiba, Al-Bagdádi, que eu também não conseguiria dormir sabendo que Antara estava acorrentado. Agora ele está livre! Livre como um pássaro e ao lado de seus familiares e amigos, pronto para novas aventuras!”. Os dois amigos se abraçaram, e Al-Bagdádi retornou para casa com a consciência tranqüila e com bastante fome, agora que todas as suas angústias haviam se acabado.

Depois de comer pão com azeitona e homus, a pasta de grão-de-bico que tanto apreciava, dormiu ali mesmo na cozinha, tomado pelo sono atrasado. Na manhã seguinte, acordou de bom humor e atrasado. Pediu desculpas à esposa por causa da forma como a tratara no dia anterior e lhe contou o final feliz das peripécias de Antara. Sua esposa o perdoou e os dois foram passear no Suq al-Hamidia, o grande mercado de Damasco onde se encontra de tudo: tapetes, roupas, temperos, perfumes, incensos e... muitas histórias.

Autor: Paulo Daniel Farah

Conto do Magrebe

MAGREBE – Região que compreende Marrocos, Argélia e Tunísia, no norte da África.

Os árabes chegaram à região nos séculos VII e VIII e levaram consigo a língua e a religião. Até hoje, afora o árabe, esses países falam o berbere, uma língua indo-européia, ao passo que o árabe é uma língua semítica.

Antigamente, os habitantes da África do Norte chamavam-se líbios, que mais tarde, em bases geográficas, passaram a ter várias denominações: númidas a Leste, mouros a Oeste. Os seus descendentes chamam-se kabilas na Argélia e na Tunísia, tuaregues no Saara, berberes em Marrocos. Poderíamos reunir todos sob a designação de berberes.


HISTÓRIA DE EL-GHALIYA BINT MANSUR
(soberana dos sete mares e dos pássaros)

Laila el-Ghaliya bint Mansur morava no fundo do sétimo mar; e era uma águia dos mares que a levava ao dorso para atravessá-los Ela mandava em todos os pássaros. Dormia um ano e ficava acordada no outro. Fazia seu leito com metade da cabeleira e cobria-se com outra metade para dormir. Era virgem. Seu palácio tinha sete portas. A águia tinha suas chaves e guardava o palácio.

Um dia, um humano tomara conhecimento de todas essas coisas espantosas, apaixonou-se loucamente pela soberana dos sete mares e dos pássaros e disse:

- Àquele que me fizer encontrar essa maravilha, darei todo o ouro e toda a prata que tenho.

Um pássaro, entre os grandes pássaros, ouviu aquilo e disse:

- Vá à margem do mar com teu cavalo; sacrifica-o à águia dos mares e verás o que verás.

Mais que depressa, o homem fez o que lhe foi aconselhado; todos os pássaros chegaram e regalaram-se do sangue do cavalo, e depois exclamaram:

- Por que esta oferenda?
- É porque desejo que a águia dos mares me transporte ao palácio de El-Ghaliya bint Mansur, disse o homem.
- Eu te transportarei – disse a águia dos mares -, mas é preciso que me prepares sete refeições de carne e sete tubos de salgueiros cheios de sangue de cavalo para comer durante a viagem.

O homem preparou as provisões e montou sobre as espáduas da águia. Nutriu-a durante a viagem, fê-la comer e beber ao fim de cada mar, e quando a águia dos mares bebeu sete tubos de sangue e comeu as sete refeições de carne, encontraram-se diante da sétima porta da soberana.

A águia abriu as sete portas e pôs o homem num jardim maravilhoso, cheio de flores e frutos, e conduziu-o ao quarto de El-Ghaliya bent Mansur . A rainha dormia. Estava deitada sobre a metade de sua cabeleira e coberta por outra metade.

O homem não resistiu ao amor que o abrasava e engravidou-a. Depois tornou a partir como viera, sobre as asas da águia dos mares.

Quando seu sono de um ano acabou, a soberana dos sete mares e dos pássaros percebeu que o seu ventre havia se desenvolvido consideravelmente durante o sono. Então chamou a águia dos mares, guardiã das suas sete portas, e interrogou-a até que ela confessou sua culpa contando o que se havia passado.

Como ela reinava também sobre os afaríts e os djinns, os gênios, ela esfregou seu anel e convocou-os. Num piscar de olhos, seu palácio encheu-se de um exército às suas ordens.

Ela lhes disse:

- Vede todos, eu que vivo retirada, no fundo do mar, engravidei durante o meu sono e quero saber quem é o culpado para vingar-me.

Logo o exército se organizou: a águia dos mares, que tinha aberto as portas, partiu na frente para dirigir a comitiva. Chegaram a uma ilha e aí encontraram belas casas e belos jardins. A águia dos mares disse:

-Foi aqui que o homem montou nas minhas asas.

Então os djinns e os afaríts sopraram sobre a ilha uma tempestade assustadora que derrubou todas as árvores e fez cair todas as casas. Os habitantes assustados gritavam:

- Por quê? Por que isto?

Mas o exército de afarits e de djinns continuou a demolir tudo, depois a rainha adiantou-se e disse:

- É para vos punir por terdes violado a minha solidão e me haverdes feito crescer o ventre.

Então o culpado adiantou-se; era mais belo que o sol e gritou:

- Ó rainha, pune a mim somente, pois sou o único autor desse crime. Eu te amo e, se não tivesse te possuído no teu leito no fundo do sétimo mar, morreria de dor. Mata-me, pois, ó soberana dos sete mares e dos pássaros, dos djinns e dos afarits.

Mas El Ghaliya bent Mansur também era jovem e bela e não ficou insensível à beleza do seu amante. Assim, respondeu-lhe:

- Temos mais o que fazer na vida do que nos matarmos. Vem cuidar daquela que fizeste mãe.

Então a tempestade parou de soprar; o exército dos afarits e dos djinns deu meia-volta sob as ordens da rainha e daquele que ela vinha de escolher para marido e companheiro.