Nova publicação sobre História da África


Felizmente o mercado de publicações sobre a cultura africana está em crescimento, e vale à pena acompanhar esta transformação. Isso exigirá uma seleção apurada, com base em leitura crítica.

Em seu segundo número, a Revista SANKOFA de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, publicada pelo NEACP - Núcleo de Estudos de África, Colonialidade e Cultura Política, espera ser um elemento pedagógico na formação de pesquisadores, professores e alunos, e contribuir com a divulgação de pesquisas acadêmicas sobre a temática.


Informações:
Núcleo de Estudos de África, Colonialidade e Cultura Política
Departamento de História - USP
11-3091-8599


História Oral e Transformação Social: Os Usos da Memória


Há lembranças e histórias que você ouve e acha que merecem ser documentadas, mas não sabe como organizar e registrar essas memórias?
Então participe da oficina “História Oral e Transformação Social: Os Usos da Memória” que será realizada na ONG Papel Jornal, no dia 28/03/09, sábado, das 14h00 às 18h00.

Uma proposta que pretende conscientizar os participantes da possibilidade de uso da memória como instrumento de valorização da realidade local, oferecendo formação básica para a confecção e divulgação de trabalhos de história local: de bairros, escolas, instituições, grupos e famílias.

A oficina será dividida em três partes:

a) apresentação de conceitos de História Oral;
b) capacitação para o trabalho de realização e documentação de entrevistas;
c) discussão de exemplos de projetos para as comunidades participantes.

Facilitador: Ricardo Santhiago, jornalista, historiador e produtor cultural, pesquisador do Núcleo de Estudos em História Oral (NEHO-USP) e do Centro de Estudos em Música e Mídia (MusiMid). Duração: 4 horas. Patrocínio: Secretaria Estadual de Cultura do Governo do Estado de São Paulo, por meio do ProAC - Programa de Ação Cultural.
Promoção: Nilda Rodrigues


Quando: 28/03/09, sábado
Horário: das 14h às 18h00
Local – ONG Papel Jornal – Rua Roberto Selmi Dei, 187 (altura do no. 2.200 da M’Boi Mirim)
Vagas: 30
Público: Educadores da rede pública, interessados em geral
Inscrições nyldarodriguez@uol.com.br
Gratuito

Entre na Roda de leitores


A Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, por meio do Programa São Paulo: um estado de leitores, gerido pela POIESIS – Associação dos Amigos da Casa das Rosas, da Língua e da Literatura, e em parceria com a Fundação Volkswagen e o CENPEC (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), convida os representantes dos municípios do Estado de São Paulo a conhecer o Projeto Entre na Roda, que capacita mediadores capazes de formar novos leitores, despertar o hábito da leitura e também dinamizar as bibliotecas e espaços de leitura comunitários já existentes.


Uma nova turma de formação terá início no ano de 2009, oferecendo aos interessados 64 horas de formação presencial, distribuídas em oito oficinas de oito horas cada, a serem realizadas ao longo do ano. Além disso, os participantes terão mais 16 horas de formação não presencial, dedicadas a estudos, tarefas e preenchimento de documentos solicitados.
Certos de que seu município partilha dos mesmos ideais e compromissos que cultivamos (o de investir na formação de pessoas que contribuam para a melhoria da educação e para a expansão do acesso aos bens culturais), convidamos Vossa Excelência a participar de uma reunião onde serão apresentadas maiores informações sobre o Projeto Entre na Roda e sobre como participar do mesmo.

Pelos becos e vielas da periferia



“O panorama literário do país é dominado por livros didáticos, de autoajuda e religiosos. Porém, aos poucos, as grandes editoras vão percebendo a força de uma nova literatura que pulsa nos grandes centros urbanos”, afirma a jornalista Fabiana Guedes em sua matéria Pelos becos e vielas da periferia, publicada na edição de fevereiro do Le Monde Diplomatique Brasil.
A matéria traça um panorama da atual produção de jovens da periferia que com a criação de novos selos independentes, estão engrossando o número de leitores no país e elevando a autoestima de setores mais carentes da população. Experiências como o sarau da Cooperifa (realizado semanalmente em São Paulo) e da editora Dulcinéia Catadora, que produz livros inteiramente artesanais, são relatadas no texto.O site do Pólis disponibiliza na íntegra o texto Pelos becos e vielas da periferia, de Fabiana Guedes.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

Oiá-Iansã

Êpa Heyi !

Ogum foi um dia caçar na floresta.
Ele ficou na espreita e viu um búfalo vindo em sua direção.
Ogum avaliou logo a distância que os separava
E preparou-se para matar o animal com a sua espada.
Mas viu o búfalo parar e, de repente,
Baixar a cabeça e despir-se de sua pele.
Desta pele saiu uma linda mulher.
Era Iansã, vestida com elegância, coberta de belos panos,
Um turbante luxuoso amarrado à cabeça
E ornada de colares e braceletes.
Iansã enrolou sua pele e seus chifres,
Fez uma trouxa e escondeu num formigueiro.
Partiu, em seguida, um passo leve, em direção ao mercado da cidade,
Sem desconfiar que Ogum tinha visto tudo.

Assim que Iansã partiu, Ogum apoderou-se da trouxa,
Foi para casa, guardou-a no celeiro de milho
E seguiu, também, para o mercado.
Lá, ele encontrou a bela mulher e cortejou-a.
Iansã era bela, muito bela, era a mais bela mulher do mundo.
Sua beleza era tal que se um homem a visse, logo a desejaria.
Ogum foi subjugado e pediu-a em casamento.
Iansã apenas sorriu e recusou sem apelo.
Ogum insistiu e desse-lhe que a esperaria.
Ele não duvidava de que ela aceitasse sua proposta.
Iansã voltou à floresta e não encontrou seu chifre nem sal pele.
“Ah! Que contrariedade! Que teria se passado? Que fazer?”
Iansã voltou ao mercado, já vazio, e viu Ogum que a esperava.
Ela perguntou-se o que ele havia feito daquilo que ela deixara no formigueiro.
Ogum fingiu inocência e declarou que nada tinha a ver,
Nem com o formigueiro nem com o que estava nele.
Iansã não se deixou enganar e disse-lhe:
“Eu sei que você escondeu minha pele e meu chifre.
Eu sei que você se negará a me revelar o esconderijo.
Ogum, vou me casar com você e viver o em sua casa.
Mas, existem certas regras de conduta para comigo.
Estas regras devem ser respeitadas, também, pelas pessoas da sua casa.
Ninguém poderá me dizer: Você é um animal!
Ninguém poderá utilizar cascas de dendê para fazer fogo.
Ninguém poderá rolar um pilão pelo chão da casa”.

Ogum respondeu que havia compreendido e levou Iansã.
Chegando em casa, Ogum reuniu suas outras mulheres e
Explicou-lhes como deveriam comportar-se.
Ficara claro para todos que ninguém deveria discutir com Iansã,
Nem insultá-la.

A vida organizou-se.
Ogum saía para caçar ou cultivar o campo.
Iansã, em vão, procurava sua pele e seus chifres.
Ela deu á luz uma criança, depois uma segunda e uma terceira...
Ela deu á luz nove crianças.
Mas as mulheres viviam enciumadas da beleza de Iansã.

Cada vez mais enciumadas e hostis,
Elas decidiram desvendar o mistério da origem de Iansã.
Uma delas conseguiu embriagar Ogum com vinho de palma.
Ogum não pôde mais controlar suas palavras e revelou o segredo.
Contou que Iansã era, na realidade, um animal;
Que sua pele e seus chifres estavam escondidos no celeiro de milho.
Ogum recomenou-lhes ainda:
“Sobretudo não procurem vê-los, pois sito a amedrontará.
Não lhes digam jamais que é um animal!”
Depois disso, logo que Ogum saía para o campo,
As mulheres insultavam Iansã:
“Você é um animal! Você um animal!”

Elas cantavam enquanto faziam os trabalhos da casa:
“Coma e beba, pode exibir-se, mas sua pele está no celeiro de milho !”
Um dia, todas as mulheres saíram para o mercado.
Iansã aproveitou-se e correu para o celeiro.
Abriu a porta e, bem no fundo, sob grandes espigas de milhos,
Encontrou sua pele seus chifres.
Ela os vestiu novamente e se sacudiu com energia.
Cada parte do seu corpo retomou exatamente seu lugar dentro da pele.

Logo que as mulheres chegaram do mercado, ela saiu bufando.
Foi um tremendo massacre, pelo qual passaram todas.
Com grandes chifradas Iansã rasgou-lhes a barriga,
Pisou sobre os corpos e redou-os no ar.
Iansã poupou seus filhos que a seguiam chorando e dizendo:
“Nossa mãe, nossa mãe !! É você mesma ?
Nossa mãe, nossa mãe !! Que você vai fazer ?
Nossa mãe, nossa mãe !! Que será de nós ?”
O búfalo os consolou, roçando seu corpo carinhosamente no deles e dizendo-lhes:
“Eu vou lhes deixar uma lembrança.”
Retirou seus chifres, entregou-lhes e continuou:
“Quando qualquer perigo lhes ameaçar,
Quando vocês precisarem dos meus conselhos,
Esfreguem estes chifres um no outro.
Em qualquer lugar que vocês estiverem,.
Em qualquer lugar que eu estiver,
Escutarei suas queixas e virei socorrê-los.”

Eis porque dois chifres de búfalo estão sempre no altar de Iansã.

Referência: Verger, Pierre Fatumbi – Lendas africanas dos orixás – editora Corrupio.
Imagem: "Iansã", acrílica sobre tela, 122cm por 122cm - Marcio Melo