A mulher-esqueleto

Recebemos um belo presente : um conto do povo Inuit.

Hoje, são nossos convidados de honra para relatar uma história que possibilita inúmeras interpretações sobre os movimentos da vida.


A mulher-esqueleto

Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar.
Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.
Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalham ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.
O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu – logo em quê ! – nos ossos das costelas da mulher-esqueleto. O pescador pensou:
- “Oba, agora peguei um grande de verdade ! Agora peguei um mesmo !” Na sua imaginação, Le já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ela lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado que estava, já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.
- Agh! – gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte. – Agh! – berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarra-lo para levá-lo para as profundezas.
- Aaaggggghhhh! – uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava Dora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da mulher-esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado secar , rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.
O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos Deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.
Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela – aquilo – jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.
- Oh, na, na, na. – Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos. – Oh, na,na, na. – Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaiszinhos aos de um ser humano.
Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra – não tinha coragem – para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá em baixo nas pedras , quebrando totalmente seus ossos.
O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.
A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.
Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: bom, bomm !...Bom, Bomm !
Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
- Carne, carne, carne! Carne, carne, carne! – Enquanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando o outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.
As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d’água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.

História do povo Inuit (aborígenes do Canadá)

Clarissa Pinkola Estés disse o seguinte: “Essa história é uma imagem adequada para o problema do amor moderno, o medo da natureza da vida-morte-vida, em especial do aspecto morte. Em grande parte da cultura ocidental, o personagem original da natureza da morte foi encoberto por vários dogmas e doutrinas até o ponto em que se separou de vez da sua outra metade, a vida. Fomos ensinados, equivocadamente, a aceitar a forma mutilada de um dos aspectos mais básicos da natureza selvagem. Aprendemos que a morte sempre acompanhada de mais morte. Isso simplesmente não é verdade. A morte está sempre no processo de incubar uma vida nova. Quando nossa existência foi retalhada até os ossos.
Em vez de considerar os arquétipos de morte e da vida como opostos, devemos encará-los juntos como o lado esquerdo e o direito de um único pensamento. É fato que dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto nas delicadas camadas do ser criado quando duas pessoas se amam , existe um coração e um alento. Enquanto um lado do coração se esvazia, o outro se enche. Quando uma respiração termina, outra se inicia
.”

Carteira de identidade


Registra-me!

sou árabe

sou árabe

número de minha identidade é cinqüenta mil

tenho oito filhos

e o nono... virá logo depois do verão!

vais te irritar por acaso?

Registra-me!

sou árabe

trabalho com meus companheiros de luta

em uma pedreira

tenho oito filhos

arranco pedras

o pão, as roupas, os cadernos

e não venho mendigar em tua porta

e não me dobro

diante das lajes de teu umbral

vais te irritar por acaso?

Registra-me!

sou árabe

meu nome é muito comum

e sou paciente

em um país que ferve de cólera

minhas raízes...

fixadas antes do nascimento dos tempos

antes da eclosão dos séculos

antes dos ciprestes e oliveiras

antes do crescimento vegetal

meu pai... da família do arado

e não dos senhores do Nujub¹

e meu avô era camponês

sem árvore genealógica

minha casa

uma cabana de guarda

de canas e ramagens

satisfeito com minha condição

meu nome é muito comum

Registra-me

sou árabe

sou árabe

cabelos... negros

olhos... castanhos

sinais particulares

um kuffiah² e uma faixa na cabeça

as palmas ásperas como rochas

arranharam as mãos que estreitam

e amo acima de tudo

o azeite de oliva e o tomilho

meu endereço

sou de um povoado perdido... esquecido

de ruas sem nome

e todos os seus homens... no campo e na pedreira

amam o comunismo

vais te irritar por acaso?

Registra-me

sou árabe

tu me despojaste dos vinhedos de meus antepassados

e da terra que cultivava

com meus filho

se não os deixastes

nem a nossos descendentes

mais que estes seixos

que nosso governo tomará também

como se diz

vamos!

escreve

bem no alto da primeira página

que não odeio os homens

que eu não agrido ninguém

mas... se me esfomeiam

como a carne de quem me despoja

e cuidado... cuida-te

de minha fome

e minha cólera.


Poeta Palestino Mahmoud Darwich (1941-2008)

1 Célebre tribo da Arábia

2 Lenço com desenhos quadriculados, usado para cobrir a cabeça e que tornou-se símbolo nacional palestino pela liberdade e independência.

Originariamente, esse lenço é usado pelos camponeses para protegerem a cabeça durante o trabalho no campo.

A lenda dos cinco mais cinco


Em nome de Alláh, clemente e misericordioso...

Afirmam os matemáticos, asseguram os pacientes calculistas, que a soma cinco mais cinco é sempre constante e igual a dez. Por Alláh, o Exaltado ! Que deplorável ingenuidade! Muitos casos há, posso garantir, em que a conta de cinco mais cinco oferece resultados que vão muito além do total previsto pelos crédulos e fantasiosos algebristas.
Como pode ser isso? – perguntará, certamente, o leitor sempre alerta para cooperar com a verdade. Como pode isso?
Cabe-me esclarecer a dúvida e restabelecer o prestígio da aritmética narrando um singular episódio ocorrido no reinado do famoso califa Al-Mutawakil, que a história, sempre severa em seus julgamentos, inclui entre os mais gloriosos soberanos do País dos Árabes.
Al-Mutawakil (que Alláh o tenha em sua paz!) chamou um dia o seu digno vizir Calil Sadek e disse-lhe:
- Minha esposa, Djohar, completa amanhã o seu vigésimo terceiro aniversário. Quero surpreendê-la e encantá-la com um presente original e valioso, Iallah! Pretendo mimosear Djohar com um adereço feito de pérolas. Irás, agora mesmo, ao suque dos mercadores e procurarás, entre os joalheiros, aquele que tiver as gemas mais raras para vender.
O honrado e prestimoso Sadek, inclinando-se diante do seu poderoso amo, respondeu:
- Escuto e obedeço, ó príncipe dos príncipes!
E, sem perda de tempo, partiu para o grande bazar de Bagdá (também chamado suque), onde se reuniam, a partir da primeira prece, os mercadores mais ricos e opulentos da cidade.
A sorte favoreceu o bom vizir do rei. Seguindo as informações de um escriba, conseguiu descobrir um peroleiro damasceno que se dispunha a vender, por preço bastante razoável, pérolas belíssimas, colhidas (dizia ele) entre as ondas revoltas do mar de Omã.
Uma hora depois, o prestativo Sadek, seguido do peroleiro, ingressava no divã real, Isto é, na sala de audiência do califa.
Imensa foi a satisfação com que Al-Mutawakil recebeu seu insigne ministro:
- É esse, ó Sadek, o mercador que vende pérolas?
Enquanto fazia essa pergunta, o califa observava, com discreta curiosidade, o peroleiro, correndo-o com o olhar da cabeça aos pés. O sírio era um homem alto, de meia-idade, ombros largos, rosto redondo e pequenos olhos vivos. Usava barba bem cuidada e vestia-se com a sobriedade de uma pessoa fina e de bom gosto. Além de larga faixa, característica dos xeques, ostentava um turbante de seda cor de tâmara com frisos brancos. Mantinha, sob o braço esquerdo, pesada bolsa de couro.
- Emir dos crentes! – informou o vizir Sadek, com voz pausada -, este damasceno, segundo informações que colhi, é pessoa de bem e goza de bom conceito no suque dos mercadores. Traz da velha Damasco, seu berço, uma coleção de pérolas e deseja vender essa preciosidade por preço bem razoável. É possível que a mercadoria desse rico peroleiro possa agradar ao vigário de Alláh, nosso amo e senhor!
Al-Mutawakil (assim diziam os seus biográfos) não era homem que levasse indecisões na garupa de seu camelo; voltou-se, pois, para o xeique do turbante cor de tâmara e assim falou:
- Diz-me teu nome, ó irmão dos árabes! Mostra-me as tuas pérolas e faze-me conhecer o preço que pretendes auferir a tua mercadoria.
Interpelado desse modo pelo rei, o mercador sírio ergueu o rosto e proferiu bem alto, placidamente, o Salam dos caravaneiros:

- Que Alláh, o Exaltado, coloque sob os pés do príncipe o tapete da paz e a areia clara da facilidade e da glória! Melil elbilad el-Kabir! (salve o grande rei do país!) Chamo-me Elias Saud Batah, mas os homens da minha terra apelidaram-me o “Xeique dos imprevistos”, pois sei resolver de maneira diferente e imprevisível os pequenos e grandes problemas da vida. Aqui estão, ó sucesso do profeta, as pérolas que desejo vender.
Descerrou o mercador a larga bolsa e retirou duas pequenas caixas de madeira. Abertas as caixas, o rei não ocultou o seu deslumbramento. Cada uma delas, sobre um fundo de veludo roxo, continha cinco pérolas enormes de impecável beleza.
- As cinco pérolas – informou o sírio apontado para uma das caixas – que se acham nesta caixa amarela são verdadeiras. Valem um tesouro e são dignas da virtuosa esposa de nosso generoso e querido califa. As outras, que se acham na caixa escura, tão lindas como as outras, são falsas! Inteiramente falsas! Nesta original coleção de dez pérolas, é difícil, quase impossível talvez, ao mais experimentado perito, distinguir uma pérola de uma verdadeira, pois as ilegítimas apresentam requintes de perfeição, ao passo que nas autênticas percebemos, depois de acurado exame, pequeninas manchas e ligeiros senões. E isso acontece, ó rei do tempo, porque a verdade, em sua singela, tem muitas vezes a aparência da impostura e da fraude, ao posso que a mentira, para ilaquear a boa-fé, reveste-se com todas as cores da autenticidade e da exatidão.
- E quanto queres, ó Xeique dos Imprevistos, pelas tuas pérolas falsas e verdadeiras? – indagou com impaciência o califa.
O mercador, depois de refletir durante alguns instantes, assim falou:
- Cada pérola verdadeira custa apenas dez dinares; cada pérola falsa custará quinhentos dinares. Mas eu só venderei as cinco legítimas àqueles que adquirirem, também, as cinco imitações.
Al-Mutawakil, ao ouvir aquela desconchavada proposta, cruzou um sorriso. E, com os olhos firmes, meio perplexos:
- Pela memória do nosso Profeta, ó mercador de Damasco! Ualalu ! É bem estranho que procures vender as falsas cinqüenta vezes mais caras que a verdadeira. O certo, o justo, o crucial seria que as pérolas autênticas custassem quinhentos ou mil dinares cada uma e que as ilegítimas fossem vendidas, em conjunto, por meia dúzia de moedas!
- Peço perdão, ó rei dos árabes – volveu em tom de cerimônia o mercador. – Vejo-me forçado a discordar de vosso respeitável parecer. A longa experiência da vida ensinou-me que, na realidade, o homem paga sempre, pelo que é enganoso e falso muito mais do que despende por aquilo que é verdadeiro e sincero. Um amigo falso, por exemplo, custa-nos caro, ao passo que um amigo leal e dedicado não nos causa dissabores nem prejuízos. O jovem que faz um casamento falso arrepende-se, paga as intermináveis amarguras da existência o passo errado que a ilusão de um momento o levou a praticar; aquele que escolhe uma boa esposa e realiza um matrimônio acertado e feliz prospera e enriquece. Ainda desta vez o falso custou caro. O verdadeiro deixou a impressão de não ter custado meio cequim em relação ao lucro que proporcionou. Baseado em tais argumentos, deliberei fixar para as minhas pérolas preços bem diversos, e esses preços, ao espírito menos avisado, podem parecer desconexos: as falsas custam cinqüenta vezes mais caro que as verdadeiras! Faço, nas minhas transações, a imitação exata da vida!
Al-Mutawakil, arguto e inteligente, percebeu que a intenção do mercador era fazer-se diferente e original. Queria justificar o apelido “xeique dos imprevistos”. E resolveu mostrar ao damasco que ele também, embora califa, prestigioso e rico, não seria facilmente vencido no largo terreno da bizarrice e da extravagância.
Disse, pois, com voz grave, ao peroleiro:
- Aceito a tua proposta. Receberás do meu tesoureiro o preço que acabas de exigir.
Uma nova personagem vai ingressar nesta história. Trata-se do intrigante Ali Fares Neman, tesoureiro de Al-Mutawakil. Chamado pelo califa, o novo vizir do tesouro compareceu ao divã, fez as contas e declarou que o mercador devia receber dois mil, quinhentos e cinqüenta dinares. As moedas foram contadas e entregues ao vendedor de pérolas.
Ali Fares Neman, avarento e mau, trazia sempre na lama uma pequena dose de veneno. Aproximou-se solerte do califa e disse-lhe, muito em segredo, qualquer coisa ao ouvido.
“Que farei agora?”, pensou o califa. E, como não lhe ocorresse, no momento, uma decisão que lhe parecesse prudente e conciliadora, resolveu interpelar o damasceno:
- Infelizmente, meu amigo, depois de ouvidos os dois peritos em pérolas, a tua situação é delicada. Se eu aceitar, como certo, o parecer do hábil Sabaga, cairá sobre ti grave acusação. Ingrata será a tua sorte. Jamais deixei impune, sob o céu de Bagdá, os impostores e intrujões. Admitido o voto do venerando Maluf, homem sensato e judicioso, ficará ainda assim, pairando sobre o teu nome, a triste sombra da mentira e da leviandade. Ofereces ao califa dos crentes dez pérolas verdadeiras e procuras falsear a verdade, deslustrar esta corte, zombar da nossa magnanimidade, fazendo crer que cinco eram falsas! Exijo, pois, que sejas leal e sincero. Que há de certo e positivo em toda essa confusão?
Ao ouvir as palavras do califa e pensando bem na gravidade da situação, o mercador sírio assim falou:
- Acabais, ó príncipe do Islã, de apelar para a minha sinceridade. Faço da sinceridade ponto de honra da minha vida. A sinceridade é sempre louvável, mas cumpre que seja delicada e prudente. Falar com sinceridade sobre coisas que devemos calar é ser brutal e descaridoso. Logo que a sinceridade ofende e magoa, muda de nome e vira estupidez. A sinceridade é a maneira suave de dizer verdades que devem ser ditas, sem melindrar. Tem a perfeita sinceridade limites que a boa educação torna intransponíveis. Para atender, pois, ao vosso justo desejo, vou expor, com a maior sinceridade, o que penso sobre este caso sem me afastar uma linha da lealdade e da lisura. Vejo, agora, diante de mim, ó emir dos árabes, três homens notáveis: o vosso tesoureiro Ali Fares Neman e os dois joalheiros de maior renome em nosso país – Sabaga, o cauteloso; e Maluf, o sem rival. Cada um desses muçulmanos agiu, neste particular episódio das pérolas, inspirado pela maneira pessoal com que procura encarar a própria vida. Não os acuso: sobre eles não atiro as flechas da culpa; Julgo-o apenas. O tesoureiro Neman é homem desconfiado. Em seu rosto pálido notam-se as sete rugas da antipatia. Suspeita de tudo e de todos. Tem o coração cortado e recortado pelos espinhos do receio e da desconfiança. Lamento-o. Será sempre um infeliz. A vida para ele será a eterna tortura entre o medo dos homens e a descrença de Deus. Por não confiar jamais no outros, é incapaz de confiar em si próprio. O honrado Ali Fares Neman, a meu ver, tomou um roteiro errado pelos caminhos da vida. Só aqueles que confiam podem ser felizes. Precisamos confiar nos amigos, nos homens de bem, em nossos chefes e superiores, naqueles, enfim, que agem com lisura e retidão. Cumpre-nos confiar nas pessoas dignas que jamais deram motivos para suspeitas e desconfianças. E ainda mais: confiar no amor, confiar na bondade, confiar em Deus!
Neste ponto o peroleiro fez uma pequena pausa, e logo retomando a palavra, disse:
- Ali está o rico joalheiro Sabaga. Vejamos o seu papel neste caso. Conheço-o muito bem, embora seja eu para ele um desconhecido. É um pessimista. Em tudo, e em todos, só vê defeitos, imperfeições, vícios e deformidades. Para Sabaga a perfeição, a pureza, e o requinte não existem. É cego para as qualidades que adornam as criaturas, mas tem olhos de lince para descobrir manchar e senões. Se lê um trecho de prosa, ou um verso, não para admirar a idéia, mas para sublinhar negligências. Não louvo a maneira de agir daqueles que procedem como Sabaga. A vida é curta: apreciemos com alegria o que há de belo e esqueçamos as máculas e deformidades. A tendência pessimista de seu espírito leva-o a admitir como falsas pérolas legítimas, verdadeiras. Que Alláh me livre desse homem injusto e cruel.
E prosseguiu o damasceno:
- Já bem diverso de Sabaga é o velho Maluf. Tem bom coração; é simples; encara a vida com benignidade e otimismo. Para Maluf tudo é lindo, gracioso e puro. O bondoso joalheiro só vê qualidades. A indulgência de seu espírito não permite que ele perceba os tristes defeitos e as deploráveis mazelas. Para ele tudo é excelente e nobre. O homem equilibrado será incapaz de agir como Sabaga, o invejoso, que só vê falhas e labéus, mas evita proceder como Maluf, que só reconhece os bons e nobres predicados. Sejamos justos procedendo com nobreza, exaltando também as qualidades e os legítimos valores.
- Basta ! – exclamou Al-Matawakil interrompendo o mercador. – Por Alláh, Basta ! Aceito, por completo, a tua explicação. Acredito na sinceridade dos teus propósitos e na lisura de tuas palavras. Confio em ti, pois não vejo motivos para alimentar receios e desconfianças. Estou convencido de que adquiri de ti, ó honrado e talentoso damasceno, dez pérolas belíssimas, sendo cinco verdadeiras e cinco falsas ! E ao obter de ti as dez gemas fulgurantes, recebi, também, um número, para mim incontrolável, de velos preciosos ensinamentos que serão como luzeiros eternos pelos longos e tortuosos caminhos de Alláh !
Como vê, meu amigo, da soma de cinco mais cinco (diz a lenda) resultou um número que o imaginoso Al-Mutawakil, emir dos crentes, com toda a sinceridade, não conseguiu avaliar.
Uassalã !
Os melhores contos, Malba Tahan

Os quatro rabinos


Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.
Em algum ponto da descida do Pardes, Paraíso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias.
O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica: “- Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade.”
O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demonstrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar no projeto da Roda e no que tudo aquilo significava... E dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé.
O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pomba do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor.

Conto extraído da obra: Mulheres que correm com os lobos, Clarrisa Pinkola Estés, Ed. Rocco.
Foto: Marcel Nascimento, Artesanatos criado pelas mulheres do projeto De Pano.

O Programa Fábricas de Cultura


O Fábricas de Cultura (Programa Cultura e Cidadania para a Inclusão Social – PCCIS) realiza ações artístico-culturais destinadas a crianças e jovens, entre 7 e 19 anos, moradores em nove distritos com baixos indicadores sociais da Capital. O Programa foi implantado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, que obteve financiamento do BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, além de apoio do Fundo Especial Japonês.


As regiões de atuação foram escolhidas a partir de pesquisa realizada pela Fundação SEADE, que desenvolveu especialmente para este trabalho o Índice de Vulnerabilidade Juvenil - IVJ, composto por indicadores que influem nas condições de vida dos jovens. Os distritos selecionados foram: Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Sapopemba e Vila Curuçá (zona leste); Brasilândia, Cachoeirinha e Jaçanã (zona norte); Capão Redondo e Jardim São Luís (zona sul).


Nove Centros Fábricas de Cultura serão construídos, um em cada distrito: esses espaços culturais, com cerca de quatro mil metros quadrados, foram concebidos para abrigar e promover formação em diversas áreas artístico-culturais, contando com salas especiais de teatro, dança, música, circo, artes visuais, multimeios e biblioteca.


Para fortalecer e enraizar o Programa nas comunidades, as ações são feitas por intermédio de ONGs e associações socioculturais daquelas localidades, as chamadas EAs (Entidades Associadas). Neste sentido de força conjunta, a cooperação entre Estado e Município viabiliza parcerias com os CEUs (Centros Educacionais Unificados) e o CCJ (Centro Cultural da Juventude) para a realização da programação.


As áreas administrativa, contábil, jurídica, institucional, técnico-cultural, programática, de produção e de acompanhamento e avaliação contam com a Unidade de Gerenciamento do Programa - UGP. Nesta estrutura estão ainda os Agentes Culturais — um profissional para cada um dos nove distritos —, que coordenam localmente todas as ações que formam a rede sociocultural do Programa, integrando as Entidades Associadas, as famílias dos participantes e as demais instituições parceiras.
http://www.fabricasdecultura.sp.gov.br/